Especialista em balística do FBI explica por que o calibre 9mm supera o .40 S&W.
James Reeves teve acesso recentemente a uma das instalações mais secretas da polícia americana: o Centro de Pesquisa Balística do FBI em Huntsville, Alabama. O que ele descobriu lá deve acabar com muitas discussões na internet sobre a escolha de calibre.
Resumindo? As munições modernas de 9mm, com o projétil certo, têm o mesmo desempenho que as de .40 S&W nos testes do FBI. E sim, eles têm os dados para comprovar.
Conheça o homem por trás da seleção de munição do FBI.
O guia de James era "Scott", que passou 23 anos no FBI, os últimos 16 no Centro de Pesquisa Balística. Antes de entrar para o FBI, ele foi policial rodoviário estadual do Missouri por cinco anos e xerife adjunto no Condado de Boone, Missouri. Ele esteve envolvido em tiroteios, serviu no exterior, no Afeganistão, trabalhou em programas da SWAT e de atiradores de elite e, por fim, acabou administrando o que começou como "três caras em um trailer" em Quantico.
Aquele trailer agora é um laboratório de verdade, onde o FBI realiza os testes de munição mais rigorosos das forças policiais americanas. E o trabalho de Scott é garantir que os agentes do FBI tenham a melhor chance possível de sobreviver a um tiroteio.
Antes de 1986, o arsenal do FBI era composto por uma mistura de revólveres calibre .38 Special e .357 Magnum, algumas pistolas semiautomáticas 9mm, algumas High Power e até mesmo algumas 1911 de carregador bifilar. Havia variedade e pouca embasamento científico nas escolhas.
"Certamente não resiste ao rigor da forma como as armas são vistas hoje em dia. Havia muita gente dizendo: 'Ei, isso funciona bem para nós'", disse Scott.
Tudo isso mudou em 11 de abril de 1986.
O tiroteio de Miami mudou tudo.
O tiroteio de Miami em 1986 é bem conhecido pela maioria dos entusiastas de armas, mas aqui está a versão resumida: agentes do FBI perseguiram dois assaltantes de banco em um Monte Carlo preto, resultando em um tiroteio de quatro minutos com entre 119 e 130 disparos. Os agentes especiais Benjamin Grogan e Jerry Dove foram mortos.
O tiroteio expôs sérios problemas com as escolhas de munição do FBI. A agência estava usando uma munição de ponta oca de 9 mm com 115 grains, que falhou catastroficamente em situações reais.
"Não tinha a capacidade de penetrar barreiras intermediárias e atingir o alvo humano, penetrando o suficiente para danificar um órgão vital", explicou Scott. "Enterramos dois agentes especiais por causa disso."
Eis o ponto crucial que se perde nos debates sobre calibre: a 9mm não falhou. A bala escolhida pelo FBI falhou.
As Consequências: Os Revólveres Acabaram
Em 1987, o FBI realizou um simpósio sobre balística de ferimentos, reunindo especialistas de todo o país. Duas decisões importantes resultaram desse simpósio.
Primeiro, os revólveres foram finalizados como armas de serviço do FBI. O motivo era simples: capacidade do carregador e velocidade de recarga em um ambiente traumático. Uma coisa é recarregar um tambor em um estande de tiro plano. Outra coisa bem diferente é quando você está sangrando, há cacos de vidro por toda parte e pessoas atirando em você.
Em segundo lugar, precisavam definir o calibre. O debate girou em torno de 9 mm, 10 mm e .45 ACP. O .40 S&W ainda não existia.
O Experimento de 10 mm
O FBI decidiu adotar os calibres 9mm e .45 ACP. Começou a distribuir as pistolas Sig Sauer P226 e P228 em 9mm no final da década de 1980 e início da década de 1990. As equipes da SWAT eventualmente receberiam os modelos Springfield Professional em .45 ACP. Mas o calibre 10mm Auto tornou-se um importante projeto de pesquisa a partir de setembro de 1988, quando a ideia de uma Instalação de Pesquisa Balística formal começou a tomar forma.
O calibre 10mm Auto parecia perfeito no papel, oferecendo alta capacidade de carregador com desempenho excepcional. O FBI adotou o revólver Smith & Wesson 1076, com câmara para o calibre 10mm.
Então a realidade se impôs.
"Tivemos problemas enormes com o calibre 10 milímetros", disse Scott. O recuo em um grupo de atiradores, em contraste com indivíduos que compram armas para uso pessoal, gerava problemas de confiabilidade. O FBI acabou enviando cerca de metade de seus fuzis 1076 de volta para a oficina de customização para retrabalho.
"Se uma das armas deles tivesse voltado e sido retrabalhada, eles adoravam", observou Scott. "E aí você tinha o outro grupo que dizia: 'Eu não consegui fazer essa coisa funcionar nem que minha vida dependesse disso, quase literalmente.'"
Apresentando o calibre .40 S&W
Se você conseguir reduzir a velocidade de uma bala de 180 grains de 10mm o suficiente para torná-la controlável, você poderia muito bem atirar com uma .40 S&W — que é exatamente o que a .40 é: uma 10mm curta que dispara os mesmos projéteis.
A Winchester e a Smith & Wesson desenvolveram o calibre .40 S&W, e o FBI decidiu que ele poderia atender a todas as suas necessidades sem os problemas do 10mm. Em 1996, a Glock ganhou o contrato com o FBI para os modelos 22 e 23.
A Glock 22 funcionou bem com munição .40 S&W de potência máxima. Já a compacta Glock 23 foi outra história. Os agentes enfrentaram falhas significativas com a munição de 180 grains de potência máxima, que atingia cerca de 1.150 fps.
"A primeira coisa que todo mundo pergunta é: 'O que há de errado com a munição?'", explicou Scott. "Depois, passamos a usar pistolas Glock 23, e os atiradores com as armas menores e mais fáceis de esconder ainda sofriam com aquele recuo incrível, e o sistema começou a falhar para nós."
O FBI reduziu a velocidade para 980 fps, o que ajudou com as G23. Mas eventualmente eles voltaram para as Glock 22 de tamanho normal, e "de repente todo mundo ficou feliz na linha de tiro".
A ciência que trouxe de volta o calibre 9mm.
Por volta de 2007, pesquisadores do FBI começaram a notar algo: os projéteis modernos de 9 mm estavam apresentando desempenho essencialmente igual ao do .40 S&W nos testes de protocolo do FBI. No final de 2010, quando Scott chegou à BRF, a discussão sobre a volta ao calibre 9 mm estava se tornando séria.
Em 2012, o FBI realizou uma aquisição de munição que reforçou ainda mais o argumento. Scott perguntou a Dave Emery, da Hornady, por que o calibre 9mm havia melhorado tanto em comparação com outros calibres.
Resposta de Emery: "Porque vocês nos permitem velocidade."
Ele explicou que os fabricantes poderiam projetar balas de 9 mm com velocidades mais altas, mantendo a confiabilidade funcional em toda uma gama de armas. Essa faixa de velocidade adicional permitia que eles desenvolvessem projéteis com desempenho mais consistente ao atravessar barreiras e atingir alvos.
"Não há a menor diferença entre as duas", disse Emery a Scott sobre a diferença entre o calibre 9mm e o .40 S&W.
O FBI analisou literalmente milhares de testes. Os dados foram claros: o calibre 9mm moderno podia igualar o desempenho do .40 S&W.
As vantagens práticas do calibre 9mm
Além do desempenho terminal, o calibre 9mm ofereceu vantagens significativas.
O FBI reuniu pessoas de toda a agência para testar os dois calibres em um percurso controlado. Desde funcionários administrativos que nunca tinham sequer segurado uma arma até operadores da Equipe de Resgate de Reféns.
Seis em cada dez atiradores foram mais rápidos e significativamente mais precisos com munição 9mm do que com .40 S&W.
O sistema funcionou melhor. Os atiradores conseguiam manusear a arma. Os carregadores alimentavam a munição de forma confiável. O recuo era controlável, mesmo em armas compactas.
E o FBI poderia usar munição 9mm de potência máxima sem os problemas de confiabilidade que havia observado com a munição .40 S&W de potência máxima em plataformas compactas.
Superando a resistência institucional
Convencer o FBI a adotar novamente a munição 9mm não foi fácil. Scott e sua equipe publicaram um livro de 200 páginas em junho de 2013, apresentando os argumentos. A pesquisa científica era sólida, mas o FBI lutava contra a emoção.
"Se tivéssemos optado pelo calibre .46, todos teriam concordado hoje mesmo", brincou Scott. "Mas quando pensamos em trocar um projétil de .40 por um de .35, eles dizem: 'Vocês vão nos matar de novo.'"
A acusação de que a mudança visava economizar dinheiro ou melhorar as pontuações de qualificação surgiu repetidamente. Scott abordou o assunto diretamente: "Jamais teríamos seguido esse caminho se ele não nos tornasse melhores em nossos confrontos armados contra nossos adversários humanos. Ponto final. Essa foi a única motivação para essa mudança."
Em 2014, Scott fez um briefing para a alta cúpula do FBI. Após a apresentação, o chefe de finanças observou que Scott não havia mencionado os custos em nenhum momento.
"Não fiz isso porque não acho que salvar a vida de um agente do FBI tenha algo a ver com dinheiro", respondeu Scott.
O responsável pelas finanças insistiu em saber o impacto nos custos de qualquer maneira: aproximadamente US$ 500.000 em economia anual apenas nos custos de treinamento da Academia do FBI.
"Essa é uma ideia genial. Precisamos ir", concluiu o executivo financeiro.
O que isso significa para você?
A pesquisa do FBI impulsionou o desenvolvimento de munição comercial. Segundo Scott, "Essa tecnologia e os esforços para se sair melhor nos testes de protocolo do FBI estão por toda parte nas prateleiras da Bass Pro, da Cabela's e de qualquer loja de armas que você visite."
Então, o que você deve procurar?
Scott recomenda considerar projéteis de 9 mm com peso entre 135 e 147 grains. "Normalmente, as linhas de munição para uso policial, de todos os principais fabricantes, oferecem essa opção. É bem claro na caixa, na loja. Esses pesos em grains parecem ser os mais consistentes, com o design e a velocidade adequados."
Para balas de 124 grains, você precisará de munição +P para obter penetração adequada. Quanto a balas de 115 grains ou mais leves? Esqueça, disse Scott — o FBI não analisa mais balas leves.
Quando Reeves perguntou sobre o uso de munição +P em projéteis mais pesados, como os de 147 grains, ele não conseguiu dar uma resposta simples. "Essa é uma pergunta difícil de responder porque eu não sei o suficiente sobre o projétil."
Entendo. É por isso que entrevistar cientistas é frustrante — eles não vão te dar a resposta simples que você quer.
A verdadeira lição: tudo se resume à bala.
O ponto mais importante desta entrevista é o seguinte: a investigação do FBI sobre calibres não teve realmente a ver com calibres. Tratava-se do design dos projéteis.
O calibre .40 S&W teria feito diferença no tiroteio de Miami em 1986? Sim. E o calibre 9mm, com a munição certa? Também sim.
"Francamente, não tenho certeza se isso existia", disse Scott quando questionado sobre qual teria sido a bala ideal em 1986. A opção mais próxima talvez fosse uma bala subsônica que estava sendo desenvolvida para a Marinha — o que Scott chamou de "uma 1479".
Os protocolos do FBI — aqueles seis testes de barreira desenvolvidos no início da década de 1990 — levaram os fabricantes de munição a projetar balas melhores. Os processos modernos de ligação, sejam eletroquímicos, térmicos ou mecânicos, permitem que os fabricantes criem projéteis que penetram barreiras de forma consistente e atingem órgãos vitais com segurança.
"Não conseguimos encontrar, no momento, um calibre melhor do que o 9mm Luger com o projétil certo escolhido para ele", concluiu Scott.
O que o FBI carrega atualmente
O FBI voltou a usar munição 9mm entre 2015 e 2016. Eles estão usando munição 9mm de ponta oca moderna, com recuo controlável, alta capacidade, excelente confiabilidade e desempenho terminal equivalente ao da .40 S&W.
Teremos mais conteúdo desta visita. Se você quiser todos os detalhes técnicos, o vídeo completo está disponível na TFB TV .
Por ora, a conclusão é simples: se você porta uma pistola 9mm para autodefesa, certifique-se de usar munição de qualidade, com peso entre 135 e 147 grains, de um fabricante confiável. Pesquisas do FBI indicam que você não perde nada em comparação com calibres maiores.
E, sinceramente, depois de ouvir Scott explicar a ciência por trás da decisão, estou inclinado a acreditar neles.


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